Esta é a primeira postagem da série Medicamentos para Fibromialgia. Ela parte da matéria da American Fibromyalgia Syndrome Association (AFSA)
, mas foi adaptada para o contexto brasileiro
e para uma finalidade muito específica: ajudar o paciente a compreender por que diferentes medicamentos podem ser considerados para sintomas diferentes – sem transformar informação em prescrição. Nesta parte, o foco é a dor. Veremos o que se espera de duloxetina, amitriptilina, pregabalina, gabapentina, relaxantes musculares e naltrexona em baixa dose; onde a evidência é mais sólida ou mais incerta; e quais perguntas ajudam a avaliar, junto com o médico, se a escolha realmente faz sentido para aquela pessoa.
Quando o principal problema é a dor
Duloxetina: um antidepressivo que também atua sobre a dor
A duloxetina pertence ao grupo dos inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina.
O nome “antidepressivo” às vezes confunde o paciente:
Porque determinados antidepressivos também interferem em circuitos do sistema nervoso envolvidos na modulação da dor. Portanto, sua indicação em fibromialgia não significa que o médico considere a dor “psicológica”. Na matéria da AFSA
, a duloxetina aparece justamente entre as opções voltadas à dor; nos Estados Unidos
, ela tem aprovação do FDA
para fibromialgia. Essa informação regulatória, porém, não deve ser transportada automaticamente para o Brasil
.
A duloxetina é uma das opções com melhor respaldo farmacológico para fibromialgia e é comercializada no Brasil
. A própria Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC)
realizou avaliação específica da duloxetina para dor neuropática e fibromialgia.1Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC). Duloxetina para o tratamento da dor neuropática e da fibromialgia. Relatório para a Sociedade nº 277.
Isso não significa que ela funcione para todos. Náusea, sonolência ou insônia, tontura e outros efeitos adversos podem limitar seu uso, e outras condições clínicas e medicamentos precisam ser considerados pelo médico.
Pergunta útil na consulta
Amitriptilina: antiga, barata e ainda presente
A amitriptilina também é um antidepressivo, mas é usada há décadas em doses e contextos diversos no tratamento da dor.
Na fibromialgia, sua utilidade pode ser especialmente interessante quando dor e dificuldade para dormir aparecem juntas, característica destacada nas recomendações brasileiras recentes. A AFSA
também a inclui entre as opções mais sedativas, geralmente consideradas quando dor e dificuldade para dormir caminham juntas.
Como pode produzir sonolência, boca seca, constipação, tontura e outros efeitos indesejáveis, sua conveniência depende bastante da pessoa, especialmente em pacientes mais idosos ou que já utilizam vários medicamentos.
Ou seja:
Pregabalina: diminuindo a excitabilidade dos sinais
A pregabalina nasceu como medicamento anticonvulsivante, mas também é utilizada para determinados quadros de dor.
Uma forma simples de entender sua ação é imaginar que alguns circuitos envolvidos na transmissão de sinais estejam excessivamente excitáveis. A pregabalina pode reduzir parte dessa excitabilidade.
A AFSA
inclui a pregabalina entre os medicamentos usados para reduzir a transmissão de sinais relacionados à dor e observa que ela também pode favorecer o sono. No Brasil
, ela é comercializada e foi especificamente avaliada pela CONITEC
para dor neuropática e fibromialgia.2Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC). Pregabalina para o tratamento da dor neuropática e fibromialgia. Relatório para a Sociedade nº 271.
Sonolência, tontura, edema e ganho de peso estão entre os efeitos que podem pesar na decisão. Para algumas pessoas, entretanto, sua ação sobre dor e sono pode tornar essa opção especialmente interessante.
Pergunta útil
Gabapentina
A gabapentina pertence a uma família farmacológica relacionada à pregabalina e também é utilizada em diversos quadros dolorosos.
Entretanto, não convém tratar pregabalina e gabapentina como se fossem simplesmente intercambiáveis. Evidências, indicações regulatórias, doses e perfil de efeitos adversos diferem.
O fato de um conhecido se beneficiar de uma delas não diz qual seria a melhor opção para outra pessoa.
Relaxantes musculares
Ciclobenzaprina e, em alguns contextos, tizanidina podem aparecer quando tensão muscular, rigidez ou sono ruim acompanham a dor. Ambas aparecem também na matéria da AFSA
nesse contexto.
Aqui novamente é importante evitar uma interpretação simples demais: fibromialgia não é uma doença causada por músculos que “não conseguem relaxar”. Um relaxante muscular pode ajudar determinados sintomas em determinados pacientes sem explicar ou tratar toda a doença.
Além disso, sonolência e tontura tornam especialmente importante avaliar risco de quedas, interação com outros medicamentos e prejuízo de atenção.
E a naltrexona em baixa dose?
A chamada LDN (low-dose naltrexone), ou naltrexona em baixa dose, tornou-se bastante conhecida entre pacientes com dor crônica.
É um bom exemplo de como precisamos separar tratamento promissor de tratamento estabelecido.
Existem estudos sugerindo benefício em fibromialgia, mas a literatura ainda é pequena e, sobretudo, inconsistente. Uma meta-análise de 2024 encontrou sinal favorável para redução da dor, enquanto outra revisão sistemática de ensaios randomizados de dor crônica publicada no mesmo ano não encontrou benefício convincente.3Vatvani AD et al. Efficacy and safety of low-dose naltrexone for the management of fibromyalgia: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials.4Rassi-Mariani V et al. The use of naltrexone in the treatment of chronic pain: a systematic review. Pain Management. 2024;14(8):453–463.
Portanto, não a apresentaria como tratamento convencional da fibromialgia. É uma utilização off-label (fora da indicação formal aprovada) que pode ser discutida por médico e paciente em casos selecionados.
A dor não termina quando chega a hora de dormir. Alguns dos medicamentos comentados nesta primeira parte também interferem no sono, e o sono ruim, por sua vez, pode aumentar dor, fadiga e dificuldade de concentração. Por isso, a próxima postagem parte exatamente deste ponto: quando o problema central passa a ser dormir mal, o que os medicamentos podem fazer — e o que não conseguem resolver sozinhos?



