Você assiste um vídeo no Youtube destinado a portadores de dor crônica. O apresentador é fluente, simpático, olha direto nos seus olhos é diz que ele pode livrar você da dor em 15 minutos. Uma dor que, aliás, você sente há anos. Mas enfim, você está desesperado e, bem, a essa altura qualquer buraco é trincheira.
O sujeito continua na tela e agora diz que o truque é usar a mente, respirar fundo e contar até 333, uma cabala ancestral que ele aprendeu com um monge tibetano. Chama isso de MindfullPLUS e se dispõe a ensiná-la a você em troca de um “like”.
“A sorte é um dividendo do suor. Quanto mais você sua, mais sorte você tem.”
Propostas do gênero as há hoje em todo lugar. Afinal, vivemos numa época em que a mentira, vinda de governantes, arcebispos ou CEOs, é o novo normal.
Não caia nelas. Não existem atalhos para conseguir o que se quer, se isso tem valor significativo. Aprontando sua startup para ser um unicórnio? Pensando em fazer um MBA na Harvard? Pronto para ganhar muito dinheiro na bolsa com derivativos? Pois terá de ralar. Estudar, testar, corrigir e voltar a tentar. A verdadeira realização vem do esforço constante, e não apenas da sorte ou do talento.
O seu caso com a dor crônica não é diferente; mas com um agravante: na maioria das empreitadas desafiadoras você conta com várias opções. Para mitigar a dor persistente e voltar a se movimentar como antes, sem medo nem vergonha de fracassar diante dos outros, é diferente. A medicina da dor hoje diz claramente duas coisas: remédios não resolvem e a saída, a única por enquanto, consiste em adotar hábitos saudáveis, capazes de devolver a você boa parte da qualidade de vida perdida para a dor. No final das contas, um caminho novo, que precisa ser trilhado aos poucos.
Imagine que a dor crônica é como um terreno abandonado. Durante anos, ele foi acumulando mato, entulho, raízes profundas. Após assistir a uma penca de vídeos inspiradores no YouTube, você acaba se convencendo: “Ora, você diz, um dia isso aqui vira um jardim”.
É bonito. É inspirador. Mas não muda nada.
O que muda é pegar uma enxada – mesmo que por cinco minutos – e limpar um pequeno pedaço. No dia seguinte, mais cinco minutos. Depois, plantar uma semente. Depois, regar. Depois, arrancar um matinho. Depois, ampliar o espaço limpo.
Cada gesto é pequeno demais para ser chamado de “transformação”. Mas, juntos, eles são a transformação.
É isso que você tem de fazer.
Não tente “vencer a dor”. Pare de anestesiá-la com remédios e drogas.
Comece limpando um pedacinho do terreno: dormir 20 minutos mais cedo, caminhar até a esquina, alongar por dois minutos.
Parece pouco? É assim que jardins começam.
E, como todo jardim, o que importa não é a força do primeiro gesto – é a consistência dos pequenos gestos, a sua progressividade, e a força de todos eles tomados em conjunto.
A ciência da dor diz exatamente isso: o corpo muda como um terreno sendo cuidado – devagar, com repetição, com ajustes, com paciência.
Otimismo é a luz. Método é a enxada. E recuperação é o jardim que nasce quando os dois trabalham juntos.

