Uma unanimidade entre os médicos é a de que a fibromialgia é muito difícil de diagnosticar. Eu não diria que é fácil, mas que desde 1990, com mais ou menos reparos, há critérios claros para tanto. Descrevê-los aqui não seria novidade. Por outro lado, saber o que opinam sobre eles os seus usuários mais qualificados, todos eles professores em faculdades de medicina de renome nos Estados Unidos e com presença constante na mídia voltada para a dor crônica, isso sim que é inédito.
“Até que saibamos mais, devemo-nos concentrar na mitigação do sofrimento, apesar da nossa ignorância”.
Em 1990, os critérios diagnósticos do Colégio Americano de Reumatologia envolviam um exame físico dos muitos pontos dolorosos nos corpos de pacientes com fibromialgia. “Este [exame] foi de grande importância para todos nós, porque antes de ser publicado, não tínhamos como diagnosticar a doença”, disse Wolfe.
No entanto, estudos futuros apontaram as limitações do exame, incluindo um estudo de 2015 do Dr. Wolfe e seus colegas publicado no PLOS ONE , descobrindo que 75% dos pacientes que relataram um diagnóstico de fibromialgia não satisfaziam os critérios de 1990.
Esses critérios foram atualizados nos anos seguintes conforme mostrado noutras publicações desse blog e do site Fibrodor.
Atualmente, os critérios preliminares do American College of Rheumatology não recomendam mais o uso de tender points e, em vez disso, apoiam o diagnóstico com base nos sintomas.
Os critérios empregam um “índice de dor generalizado” que avalia 19 áreas do corpo para dor e um “escore de gravidade dos sintomas” que analisa os sintomas somáticos e cognitivos. Ambas as medidas produzem pontuações numéricas que, quando combinadas, podem ser úteis no diagnóstico da fibromialgia. As diretrizes canadenses também não exigem um exame de tender point para diagnóstico.
Robert S. Katz, MD, professor de medicina no Rush Medical College e reumatologista em Chicago , foi coautor dos novos critérios de diagnóstico com Dr. Wolfe, Dr. Clauw e outros. Ele disse que os pacientes preenchem um folheto do índice de dor generalizada no consultório, o que leva cerca de um minuto. “Acho que os médicos da atenção primária deveriam usar alguma ferramenta para dizer: ‘Não, não acredito’ ou ‘você parece bem’ ou ‘seus exames estão normais’. Acho que precisa haver uma avaliação verdadeira disso, e esta pequena folha é útil”, disse o Dr. Katz.
Nota do blog: a ferramenta FIBROCONSULTA reproduz fielmente os critérios de diagnóstico do American College of Rheumatology aos que o Dr. Katz se refere. Apenas ela não é um folheto, e sim um link na internet que qualquer pessoa pode acessar pelo seu celular.
Embora um diagnóstico de fibromialgia possa ser aproximado por uma pontuação combinada superior a 12 em muitos casos, alguns médicos veem a condição como ocorrendo em um continuum. Faz sentido começar a tratar mesmo pacientes com pontuações mais baixas antes que os sintomas se tornem graves e potencialmente irreversíveis, disse o Dr. Clauw, Daniel Clauw, MD, professor de anestesiologia, psiquiatria e reumatologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan (EUA) .
“Os que pontuam de 6 a 9, podem ser as pessoas ideais para identificar na prática clínica de rotina e tratar com as mesmas terapias medicamentosas e não medicamentosas que usamos para a fibromialgia. Isso, porque essas pessoas (ainda) não caíram tanto no continuum ao ponto de se tornar impossível que consigam melhorar”, disse ele.
Apesar das incertezas em torno da fibromialgia, Leslie Crofford, MD, ex-presidente da Rheumatology Research Foundation (EUA) disse que os critérios de diagnóstico são bastante diretos. “Acho que há um equívoco de que a fibromialgia é difícil de diagnosticar porque os sintomas são relativamente inespecíficos. Quando vistos em conjunto, os sintomas podem apontar claramente para a fibromialgia como o diagnóstico de pacientes com dor crônica generalizada ou multifocal. A principal preocupação que a maioria dos internistas tem é que eles têm medo de estar perdendo alguma coisa porque os pacientes podem ser terrivelmente sintomáticos e bastante angustiados com isso”.
O que é e o que faz um médico internista?
Um médico internista é um especialista em saúde do adulto, que atua na prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças não cirúrgicas.
O médico internista pode trabalhar em consultórios, clínicas, ambulatórios de hospitais e enfermarias.
As principais funções de um médico internista são:
- Tratar pacientes com doenças autoimunes, metabólicas, sistêmicas, infecciosas, entre outras.
- Acompanhar pacientes com alto risco vascular, como os que têm diabetes ou hipertensão arterial.
- Ajudar pacientes idosos com doenças como insuficiência cardíaca ou diabetes.
- Realizar estudos analíticos ou radiológicos.
- Acompanhar pacientes com doenças sistêmicas.
O médico internista deve ter uma visão integrada do paciente, conjugando sintomas, sinais e histórico do paciente para chegar a um diagnóstico precoce. Ele também pode precisar de parcerias com outras especialidades médicas para gerir o paciente.
Se um diagnóstico é suspeito, os internistas devem se perguntar se outro distúrbio pode estar imitando a fibromialgia. Doenças como lúpus, doenças da tireoide, espondiloartrite soronegativa, artrite reumatoide e polimialgia reumática podem causar dor musculoesquelética generalizada, mas geralmente não são comuns no ambiente de cuidados primários.
“É aí que entra a parceria entre o reumatologista e o internista. Particularmente se o internista fez alguns exames laboratoriais, então ambos podem ficar um pouco confusos sobre o que o paciente tem e podem não se sentir à vontade para fazer essas exclusões (de outras doenças crônicas com sintomatologia similar) por conta própria”, disse a Dra. Crofford.
Realizar exames de imagem para fibromialgia pode ser um esforço “traiçoeiro”, disse Katz, pois uma ressonância magnética das costas ou do pescoço pode mostrar algo de muito tempo atrás que pode não ser clinicamente relevante e pode levar a mais testes desnecessários. Exames laboratoriais gerais, como hemograma completo e química do sangue, podem ser úteis, “mas não para fazer o diagnóstico, apenas para ter certeza de que não estamos perdendo nada”, disse Katz, acrescentando que anormalidades na taxa de hemossedimentação e nos níveis de proteína C reativa podem indicar uma doença diferente.
A taxa de hemossedimentação ou testes de proteína C reativa podem descartar a polimialgia reumática, principalmente se o paciente tiver mais de 50 anos, disse a Dra. Crofford. Se um paciente tiver sintomas articulares, um internista também pode verificar o fator reumatoide e o anticorpo antipeptídeo citrulinado cíclico e, se um paciente relatar fraqueza (o que não é particularmente característico da fibromialgia), os internistas também podem verificar a creatina fosfoquinase, disse ela. Se algum teste der positivo, um reumatologista pode avaliar o paciente quanto a um problema musculoesquelético inflamatório autoimune e pode trabalhar em conjunto com o internista no tratamento.
| Pontos para Levar para Casa | |
| Diagnóstico da Fibromialgia | Embora considerada difícil de diagnosticar, critérios claros e baseados em evidências estão disponíveis desde 1990, evoluindo para métodos mais robustos que avaliam sintomas e índices de dor generalizada em vez de tender points. |
| Critérios Modernos | O diagnóstico atual utiliza ferramentas padronizadas como o “Índice de Dor Generalizada” e o “Escore de Gravidade dos Sintomas”, permitindo uma avaliação mais precisa e ágil. |
| Tratamento Antecipado | Tratar pacientes com sintomas moderados (pontuações entre 6 e 9) pode prevenir o agravamento da condição, utilizando intervenções medicamentosas e não medicamentosas aplicáveis à fibromialgia. |
| Diagnóstico Diferencial | A exclusão de outras condições, como lúpus, artrite reumatoide ou polimialgia reumática, é essencial. Internistas e reumatologistas devem trabalhar em conjunto para uma abordagem mais assertiva. |
| Parceria Multidisciplinar | Internistas desempenham papel crucial ao integrar sintomas, exames laboratoriais e histórico do paciente, mas a colaboração com especialistas em reumatologia é vital para casos complexos. |
| Ferramentas de Apoio | Recursos como a FibroConsulta e FibroSintomas, acessáveis no site Fibrodor, facilitam a aplicação dos critérios diagnósticos e o diagnóstico diferencial, otimizando o atendimento clínico. |
Conclusão
A evolução dos critérios diagnósticos tornou a identificação da fibromialgia mais objetiva e acessível, desmistificando a percepção de extrema dificuldade. O diagnóstico precoce e diferenciado, aliado a ferramentas práticas e parcerias multidisciplinares, é essencial para proporcionar tratamento eficaz, prevenir agravamentos e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. A integração de práticas baseadas em evidências e tecnologia assegura um manejo clínico mais preciso e centrado no paciente.

