Dor crônica

Fibromialgia: mitos e fatos

Fibromialgia: mitos e fatos

A fibromialgia é chamada de “doença invisível” em alguns países. E de fato, ela é. O que não significa que ela não seja muito real. Em 1990, o American College of Rheumatology desenvolveu diretrizes para o diagnóstico de fibromialgia. Hoje essa proposta está superada. Em 1990, havia apenas cerca de 200 estudos publicados sobre fibromialgia. Hoje, existem mais de 4.000 estudos publicados sobre fibromialgia. Contudo, gostemos ou não, ela é uma doença difícil de tratar, e é comum médicos e médicas falarem o mesmo dos pacientes com essa condição. Talvez por isso, nem uns nem outros procuram se informar a respeito, o que inevitavelmente abre espaço para mitos e fake news, em geral assustadores. Esse post, baseado parcialmente em um artigo publicado no site WebMD, comenta 4 dos mitos mais conhecidos.

“Os homens nascem ignorantes, não estúpidos. Eles se tornam estúpidos pela má educação que recebem.”

Bertrand Russell (Adaptação)

A fibromialgia se manteve como um mito, na comunidade médico-científica, até pouco tempo. Hoje ela é reconhecida oficialmente como doença/dor crônica primária, ao menos pela International Classification of Diseases da World Health Organization.

“Ao menos”, porque a fibromialgia continua sendo mal-entendida no atendimento médico primário. Há razões para isso. Trata-se de uma doença crônica complexa cujos sintomas – cansaço, dores no corpo, problemas de sono e cognitivos – se confundem com os de outras doenças crônicas. Sobra confusão e desinformação sobre ela, e quando isso ocorre, a experiência do Brasil na pandemia que o diga, as fake news correm soltas.

Há dois anos eu já comentei detalhadamente os mitos vigentes sobre a fibromialgia.  Nesse post vou rever rapidamente 4 dos mais comuns. A intenção é facilitar o entendimento da fibromialgia a pessoas que, por sentirem dores no corpo, imaginam ter contraído essa doença – e dormem mal por causa disso.

Mito: a fibromialgia está na sua cabeça

Pessoas com fibromialgia costumam dizer que outras pessoas, incluindo alguns profissionais de saúde, disseram que a doença não existe. Isso pode resultar em parte do fato de que não existe um teste claro que diga que você tem ou não.

A fibromialgia – como diabetespressão alta e depressão – existe em uma escala. Os sintomas aumentam e podem piorar até que o médico decida que você tem. Nem sempre é óbvio, e nem todos os médicos concordam sobre o que contribui para um diagnóstico.

Mito: a fibromialgia é um tipo de depressão

Alguns chamam a fibromialgia de “depressão mascarada”. Mas nem todo mundo com fibromialgia relata depressão.

Na verdade, a depressão ao longo da vida acontece a cerca de 40% das pessoas com fibromialgia. Além do mais, muitas pessoas têm depressão sem a dor crônica e outros sintomas da fibromialgia. A confusão pode resultar do fato de que alguns sintomas das duas condições se sobrepõem. O fato de certos genes e características psicológicas estarem associados a ambas as doenças provavelmente contribui para isso. Mas isso não significa que sejam iguais. Na verdade, a pesquisa continua sobre as causas de ambas as condições.

Fibromialgia

Mito: você deve ter pontos sensíveis para ter fibromialgia

Nas últimas 3 décadas, os médicos procuraram pontos sensíveis para diagnosticar a fibromialgia. São pontos no corpo, como mandíbula, ombro, antebraço, quadril, coxa etc., que são sensíveis ou doloridos ao toque.

Pesquisas mais recentes sugerem que cerca de 20% das pessoas com fibromialgia podem não ter esses pontos sensíveis.

Hoje, os médicos devem perguntar sobre sua dor em cada uma das cinco regiões do seu corpo:

  • Região axial (pescoço, tórax, abdômen e costas)
  • Região superior esquerda (mandíbula, ombro, braço)
  • Região inferior esquerda (quadril, nádega, perna)
  • Região superior direita (mandíbula, ombro, braço)
  • Região inferior direita (quadril, nádega, perna)

Eles também vão querer saber se você tem sintomas comuns de fibromialgia, como problemas de sono, cansaço ou névoa cerebral. Para ajudá-los a fazer um diagnóstico, eles avaliarão suas respostas com base em uma lista de verificação chamada “índice de dor generalizada” e um teste chamado “escala de gravidade dos sintomas”.

Mito: Não há tratamento para a fibromialgia

Há vários tipos de tratamento, porém o principal não é o medicamentoso. Analgésicos, antidepressivos e anticonvulsivantes são prescritos medicamente apenas para ajudar com os sintomas da fibromialgia. Eles funcionam de maneira diferente para pessoas diferentes e, em alguns casos, possuem efeitos colaterais se mantidos fora do período prescrito. Convença-se: fármacos não curam doenças crônicas, apenas aliviam temporariamente seus sintomas (dor, inclusive).

Existem várias coisas que você pode fazer para se sentir melhor sem medicação:

  • Durma o suficiente. Deixe seu quarto fresco, silencioso e escuro. Tente acordar no mesmo horário todos os dias e crie uma rotina relaxante antes de dormir que pode incluir coisas como um banho quente, leitura leve e exercícios de relaxamento.
  • Faça exercícios regularmente. Nunca exagere. Trinta minutos na maioria dos dias da semana são suficientes. Evite se exercitar ​​perto da hora de dormir.
  • Alivie o estresseIsso pode significar evitar certas situações ou, se isso não for possível, fazer atividades que possam acalmá-lo, como meditação ou tai chi.
  • Seja criativo, invente soluções personalizadas. Um fisioterapeuta pode lhe ensinar exercícios que o deixarão mais forte. Você pode mudar a sua ergonomia no trabalho ou na cozinha, para evitar posturas erradas o facilitar movimentos. A psicoterapia, assim como a terapia cognitivo-comportamental, podem ajudá-lo a se sentir melhor consigo mesmo e a lidar com situações estressantes.
  • Procure consultar um médico ou médica que tenha experiência e seja um estudioso da fibromialgia. São poucos. De qualquer maneira, aprenda você sobre sua condição. Quanto mais você souber, melhor poderá defender suas necessidades. Além disso, o conhecimento pode aliviar a ansiedade e ajudar seu tratamento a funcionar melhor.

Baseado em “Fibromyalgia: Myths and Facts”, Paul Frysh.

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4 respostas

  1. Há cerca de dois anos fui diagnosticado com fibromialgia, a partir de uma narrativa que envolvia ‘sequelas de chikungunya e problemas emocionais’. Consultei médicos de várias especialidades (medicina da dor, ortopedistas, reumatologistas) todos um tanto inseguros! Experimentei várias medicações, e hoje tomo alternadamente (Dual, 60mg e Pregabalina, 150mg), que juntamente com atividades físicas, acupuntura e fisioterapia me auxiliam a controlar as dores difusas. Tenho 65 anos, sou economista recém aposentado!

    1. Grato pelo seu comentário. O seu circuito médico em busca de uma solução é padrão; o meu foi igual e durou mais de duas décadas. Felizmente, no seu caso o alívio – ou o controle dos sintomas – parece ter sido conseguido, em parte graças a terapia farmacológica. De fato, duloxetina e pregabalina mostram alguma eficácia quanto a amenizar a dor, embora com efeitos colaterais (ex.: sono). Juntas, inclusive, ajudam mais do que separadas. (fontes: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26982602/, https://ard.bmj.com/content/78/Suppl_2/123.2/, https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30877484/).
      De todo modo, espero que não aposte todas as suas fichas na farmácia. O site Fibrodor, entre muitas outras informações, apresenta várias argumentando contra isso e a favor de uma estratégia diversificada. O ebook “Tudo o que você gostaria de saber sobre FIBROMIALGIA e tinha medo de perguntar – Parte 2”, (https://www.fibrodor.com.br/ebooks/fibromialgia-2/) por exemplo, traz nada menos que 4 seções sobre Tratamentos, alguns deles não-farmacológicos.
      Espero que fique bem!

  2. Há cerca de três anos descobri que tenho fibromialgia, sentia dores insuportáveis, mas com o tratamento com Desve 50mg e pregabalina 150 mg amenizaram muito as dores, o que me aborrece muito e o preconceito das pessoas em afirmarem que a doença é psicológica, se tratar o psicólogo não preciso tomar remédios.

    1. Alirdes, que bom que o tratamento farmacológico (Desve e pregabalina) foi satisfatório. Nada comum, em todo caso. Em se tratando de fibromialgia, e para os portadores da síndrome em geral, o desempenho da farmacologia (duloxetina e pregabalina, mormente) ainda é decepcionante. Quanto ao preconceito etc., eu compreendo a sua frustração. Através do blog tenho feito o possível por destacar a fibromialgia e o pouco que a medicina (e seus agentes, médico(a)s, planos de saúde e até a legislação) se importa com ela. Isso sim que é comum. Tanto assim que eu tenho dedicado muito espaço no blog a esse tema (https://www.dorcronica.blog.br/?s=estigma). A fibromialgia é uma síndrome crônica e como tal, afeta e depende de fatores psicológicos muito mais que uma doença passageira. Isso é fato comprovado cientificamente. O que não significa que quem precisar acalmar estresse, ansiedade, raiva etc. requeira um psicólogo para tanto. E também não significa que apenas o equilíbrio mental seja suficiente para amenizar os sintomas da fibromialgia, especificamente. O tratamento deve visar recuperação de ambos, físico e mente, ao mesmo tempo. Espero que fique bem. At, Julio

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