Dor crônica

Fibromialgia 2025: (ainda) uma doença controversa?

Fibromialgia 2025: (ainda) uma doença controversa?

Hoje há evidências muito claras e objetivas de que a fibromialgia é um problema real. Mas ainda há uma divergência considerável ao interior da comunidade médica sobre a causa da doença. Enquanto alguns médicos a caracterizam como uma doença puramente orgânica baseada na amplificação anormal da dor, outros a consideram um transtorno biopsicocultural de etiologia multifatorial. Em termos simples, enquanto o primeiro grupo visa tratar uma doença para, se possível, curá-la, o segundo grupo, além disso prioriza melhorar a qualidade de vida da pessoa do paciente. Essa postagem primeiramente descreve a controvérsia usando declarações de médicos-pesquisadores que vem estudando e publicando sobre a fibromialgia há décadas. Em seguida, é detalhado o efeito que a referida controvérsia entre os médicos em geral tem sobre o paciente e a qualidade dos serviços médicos recebidos.

“Estamos muito acostumados a atribuir a uma única causa o que é produto de várias, e a maioria das nossas controvérsias vêm disso”.

– Marcus Aurelius

Inúmeros pesquisadores em todo o mundo atualmente investigam os mecanismos de dor da fibromialgia, um distúrbio definido por dor muscular generalizada que muitos pacientes consideram debilitante e que tem sintomas associados como fadiga, falta de sono restaurador e dificuldades de memória. Mas ainda há uma divergência considerável entre a comunidade médica sobre a causa da doença.

A controvérsia

“Há evidências muito claras e objetivas de que este é um problema real: como o controle de volume está muito alto no sistema nervoso central, as pessoas com esses problemas sentem coisas dolorosas que geralmente não são sentidas como dolorosas”, como roupas apertadas ou um manguito de pressão arterial inflado. Essa amplificação da dor, disse o Dr. Daniel Clauw, professor de anestesiologia, reumatologia e psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan (EUA Estados Unidos), se estende a outros estímulos sensoriais, como luzes brilhantes ou ruídos altos “…porque no cérebro, as regiões que interpretam qualquer estímulo sensorial são aumentadas em volume ou aumentadas em ganho”.

Mas o pesquisador de fibromialgia de longa data Frederick Wolfe, fundador do National Data Bank for Rheumatic Diseases Estados Unidos, vê essas observações do sistema nervoso central como sendo o mecanismo pelo qual a doença é expressa, não necessariamente a causa.

“O que eu acho ruim é tentar dizer que sabemos o que causa isso, que isso é realmente uma doença do sistema nervoso central causada pela dor central. Nós realmente não sabemos disso”, disse ele. Como os estudos comparam pessoas com fibromialgia a pessoas sem dor, não é surpreendente que haja uma diferença na atividade cerebral, disse ele.

Em termos de causas potenciais da fibromialgia, Dr. Wolfe disse que muitos fatores desempenham um papel, incluindo os básicos biológicos, psicológicos, sociais e individuais. Em geral, as pessoas com fibromialgia tendem a ter menos educação, ser mais angustiadas e ter mais percalços na vida, observou ele. “Na verdade, em nossa Pesquisa Nacional de Entrevistas de Saúde, descobrimos que as pessoas que têm [fibromialgia] eram realmente mais propensas a ter câncer, doenças cardíacas e doenças renais”, disse ele. “E nos pareceu que uma das associações com a fibromialgia era o estresse que poderia incorrer em estar doente ou ter uma desvantagem social”.

Além disso, disse o Dr. Wolfe, a doença é “totalmente subjetiva,” já que o seu diagnóstico até agora é geralmente baseado em sintomas relatados. De fato, doenças contestadas, como fibromialgia e síndrome da fadiga crônica, carecem de uma base médica clara.

“Isso não significa que essas doenças não existam e que essas pessoas não tenham problemas”, disse Wolfe. “Isso significa que há incerteza entre médicos e pacientes.”

“Os médicos não podem curar a dor crônica da fibromialgia imediatamente, e talvez nem depois. Os pacientes devem ajustar suas expectativas a essa realidade”.

O Efeito da Controvérsia no Paciente

A discussão sobre a natureza da fibromialgia – fisiológica ou psicocultural – pode ter impactos profundos na experiência dos pacientes, tanto no diagnóstico quanto no gerenciamento da condição. Na minha opinião, ela é um pretexto para que a maioria dos médicos continue desinteressada em estudar e tratar de pacientes com fibromialgia ou, pior ainda, em diagnosticá-los e tratá-los com base no que se sabe sobre outras doenças crônicas que, embora semelhantes à fibromialgia, diferem dela em detalhes medicamente relevantes. Vejamos isso a seguir, mais detalhadamente:

Validação da condição e redução do estigma

A existência de diferentes perspectivas sobre a fibromialgia pode dificultar que pacientes se sintam validados. Principalmente se esses pontos de vista forem extremos, exagerados. Enquanto alguns médicos reconhecem a fibromialgia como uma condição real com mecanismos específicos de amplificação de dor, outros a veem como uma síndrome apenas biopsicocultural, o que pode reforçar a visão errônea de que a doença “não é real” ou é puramente psicológica. Essa ambiguidade pode aumentar o estigma, levando pacientes a se sentirem desacreditados ou negligenciados, especialmente em consultas médicas.

Influência no gerenciamento clínico

Embora haja consenso entre especialistas de que tratamentos farmacológicos são limitados e abordagens não farmacológicas, como exercício, são fundamentais, a controvérsia sobre a causa pode influenciar a forma como os médicos conduzem o gerenciamento. Profissionais mais inclinados à abordagem central da dor podem focar mais em terapias que visam o sistema nervoso central, enquanto aqueles que defendem uma etiologia multifatorial podem priorizar intervenções psicossociais ou estratégias para reduzir o impacto do estresse e das desigualdades sociais.

“Este é um tipo diferente de dor que precisa de um tipo fundamentalmente diferente de tratamento.”

– Dr. Daniel Clauw

Expectativas de recuperação

A incerteza sobre as causas pode impactar como os pacientes veem sua condição e suas expectativas de recuperação. Mensagens que enfatizam a complexidade multifatorial da fibromialgia podem ajudar os pacientes a entenderem que não existe uma solução única, mas também podem gerar frustração ou sentimento de impotência. Por outro lado, uma abordagem que reforce a amplificação da dor central pode oferecer uma visão mais mecanicista, mas sem respostas claras sobre “curas”, o que pode ser desmotivador.

Necessidade de abordagem personalizada

A controvérsia destaca a importância de uma abordagem personalizada. Para alguns pacientes, reconhecer fatores biológicos e sociais pode abrir portas para estratégias holísticas, como suporte psicológico ou intervenções para lidar com estressores sociais. Para outros, uma explicação neurocientífica pode ser mais eficaz para validar sua dor e ajudá-los a aceitar tratamentos baseados em neuroplasticidade, como exercícios graduais e educação sobre dor.

Papel do paciente no gerenciamento

A controvérsia também reforça a necessidade de empoderamento do paciente. Em vez de esperar por uma solução definitiva, os pacientes podem ser incentivados a assumir um papel ativo em seu gerenciamento, utilizando técnicas como mindfulness, terapia cognitivo-comportamental e exercícios personalizados. Essa abordagem pode ajudá-los a se concentrar em melhorar a funcionalidade e a qualidade de vida, em vez de buscar a “cura” da dor.

Conclusão

Na fibromialgia, os opioides não funcionam, os medicamentos que parecem ser eficazes são limitados em sua capacidade terapêutica e as abordagens de tratamento não farmacológico (particularmente exercícios) parecem ser fundamentais para diminuir a dor dos pacientes e melhorar a funcionalidade. Assim as coisas, uma controvérsia entre médicos com capacidade para influenciar tratamentos de pacientes, é contraproducente e temerária. Os mecanismos da fibromialgia são biológicos e psicossociais. Embora a controvérsia sobre a fibromialgia reflita incertezas científicas, há uma a necessidade de estratégias de gerenciamento que considerem ambas as abordagens. Para os pacientes, essa dualidade pode teoricamente ser uma oportunidade de obter um cuidado mais abrangente, desde que os médicos estejam dispostos a ouvir, validar e adaptar o tratamento às suas necessidades e experiências individuais. Na prática, eu receio que enquanto não haja mais clareza científica, isso não acontecerá no curto, e nem no meio prazo. Assim, não resta aos pacientes outra opção senão a de driblarem mais ou menos sozinhos, via autogerenciamento, as incertezas que pairam sobre o tema.

Nota do blog: alguns trechos provém de uma publicação do American College of Physicians Estados Unidos, assinada por Mollie Dunkin.

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