Conviver com dor crônica é uma experiência que vai além do desconforto físico; ela frequentemente afeta a saúde emocional e mental do paciente. A sensação de impotência diante da dor persistente pode gerar medo, ansiedade e desânimo. Nessas circunstâncias, desenvolver um locus de controle interno – a crença de que se pode influenciar os próprios resultados por meio das próprias ações – torna-se fundamental. Esta habilidade permite que o paciente assuma um papel ativo no gerenciamento de sua condição, promovendo maior autonomia e qualidade de vida. No entanto, é essencial que as estratégias adotadas para fortalecer esse senso de controle sejam aplicadas com cautela e sob orientação adequada, evitando abordagens que possam ser mais prejudiciais do que benéficas.
“A medicina é uma profissão estranha onde um pobre paciente é frequentemente atordoado com razões frívolas para sua doença, e uma enxurrada de palavras, misturadas com termos que basicamente não significam nada, para entretê-lo com o uso de certos remédios bons ou ruins enquanto espera que a natureza o matasse ou curasse.”
O Médico: O senhor tem medo?
Paciente: Tenho.
O Médico: Do quê, exatamente?
Paciente: De não melhorar.
O Médico: E se eu dissesse que o medo pode doer mais do que a própria dor?
Paciente: Eu acreditaria. Porque ele não me larga nem quando a dor alivia.
O Médico: Então é com ele que vamos começar. Há uma técnica infalível para vencer o medo. Interessado em aprendê-la?
Paciente: Certamente.
O médico: Ótimo. O senhor tem medo de altura?
Paciente: Siiiiiiiiim!!!!!!
O médico: Ok, então faça o seguinte: escale um prédio de não menos que 30 andares, vai no topo, suba mureta e fica ali de pé.
Paciente: Ah, e por quanto tempo?
O médico: Uma hora, mais ou menos. E sempre olhando para baixo.
Paciente: Será que isso vai me curar?
O médico: Seguramente. Se sobreviver.
Você deve achar que o diálogo acima pertence ao mundo do fantástico, mas se engana
“Coach que colocou em perigo 32 pessoas no Pico dos Marins, em SP, afirma que ‘quem não quer correr risco fica em casa vendo stories’. Apesar do vento e da chuva, Pablo Marçal (o coach do grupo) insistiu em subir a montanha na cidade de Piquete (SP), enfrentando tempestade com ventos de mais de 100 km/h, que destruiu e inundou barracas. Bombeiros que resgataram o grupo (de 32 pessoas, remanescentes das 64 no início da subida) chamaram expedição de ‘pior ação já vista no Pico dos Marins”.
“A subida ao pico…foi feita em meio à forte chuva e ao vento, fora da época recomendada e sem os equipamentos necessários”. “…vídeos mostram as pessoas relatando cansaço, frio e querendo desistir da “expedição” enquanto eram convencidas por ele de que a circunstância ‘era uma chance de crescimento e que era preciso ’vencer os medos’”. “Em 2018, um esportista francês que morava na região morreu durante uma tentativa de subida”.
A medicina que mata o paciente
A história antes relatada ilustra o que, em psicologia e medicina, chamamos de “a cura que mata o paciente”. Um remédio eficaz pode se tornar um veneno se aplicado sem cuidado, na dose errada ou na hora errada. O mesmo vale para técnicas terapêuticas. Uma pessoa com dor crônica precisa de acompanhamento cuidadoso: o que fortalece um paciente pode afundar outro, se for mal aplicado.
Esse episódio também serve como um alerta: o problema não é o desafio em si, mas a forma como ele é imposto. A exposição a situações difíceis pode ser terapêutica – uma técnica usada na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) chamada exposure, ou “exposição in vivo” envolve enfrentar um objeto, situação ou atividade temida na vida real. A ideia é superar o medo enfrentando-o. Mas essa técnica só funciona dentro de um plano de recuperação adequado à natureza do paciente, a sua atual vulnerabilidade e a seus riscos pessoais. Fora disso, o que era para fortalecer, pode desorganizar ainda mais.
“Cure a doença, mate o paciente” é uma citação atribuída a Francis Bacon (1561-1626). Ela aparece em um artigo publicado no British Medical Journal em 2006. A citação pode se referir à ideia de que a cura para uma doença pode prejudicar a saúde do paciente de outras maneiras.
Desenvolvendo um Locus de Controle Interno: técnicas sim, mas com prudência
A experiência de dor crônica frequentemente leva à sensação de perda de controle sobre a própria vida, em contraste com a necessidade de desenvolver um forte locus de controle interno. Nesse cenário, o conceito de locus de controle interno surge como um antídoto psicológico poderoso: trata-se da percepção de que nossas ações influenciam, ao menos em parte, os resultados que obtemos. Ter esse tipo de percepção está associado a maior resiliência, mais iniciativa e melhores resultados no enfrentamento da dor.
Mas desenvolver esse locus interno não é tão simples quanto aplicar uma técnica qualquer. É crucial lembrar que o mapa da técnica não é o território do paciente. É um processo que exige conhecimento, orientação adequada e, acima de tudo, bom senso.
De que vale ter iniciativa própria diante dos problemas, típicos de uma vida com dor crônica?
Conviver com dores crônicas pode colocar o paciente diariamente diante de encruzilhadas, apuros e dilemas difíceis de resolver… Consideremos um paciente que utiliza opioides para controlar dores intensas. Com o tempo, ele percebe sinais de tolerância e possíveis efeitos colaterais.
Diante disso, o paciente enfrenta o dilema de:
| Opção 1 | |
| Continuar com a Medicação Atual | Manter o uso dos opioides, ciente dos riscos de dependência e dos efeitos adversos associados. |
| Opção 2 | |
| Buscar Alternativas | Explorar outras opções de tratamento, como terapias complementares, mudanças no estilo de vida ou outras classes de medicamentos. |
Embora o médico possa fornecer informações e recomendações, a decisão sobre o caminho a seguir deve ser tomada pelo paciente, após uma avaliação cuidadosa dos prós e contras de cada opção. Essa escolha exige uma compreensão profunda de sua condição, dos riscos envolvidos e de suas próprias prioridades e valores.
Embora o locus de controle tenha componentes ligados à personalidade e ao histórico de vida (como genética e criação), ele pode e até deve ser desenvolvido.
E há evidências sólidas disso:
Na infância, o reforço positivo e a autonomia incentivada contribuem para um locus interno. Na vida adulta, experiências de superação e aprendizado pessoal reforçam a sensação de controle.
Intervenções psicológicas, como a TCC, ajudam a desafiar crenças limitantes e promover pensamentos mais realistas e funcionais.
Programas de enfrentamento e desenvolvimento pessoal podem auxiliar no aumento da autoeficácia — a crença de que se é capaz de lidar com os desafios. Para um paciente com DTM que cresceu achando que fármacos resolvem qualquer doença, é uma surpresa ficar sabendo de que eles funcionam muito discretamente no seu caso, e até uma violência trocá-los por exercícios (ex.: alongamentos e exercícios de abertura bucal) que requerem exposição gradual a algum grau de dor.
Porém, essa troca não acontece automaticamente. É preciso considerar o momento do paciente, seu nível de dor, seus recursos emocionais e cognitivos, e o ambiente em que vive. Técnicas padronizadas, aplicadas como receitas, ignoram essas variáveis cruciais.
É comum cairmos na armadilha de acreditar que um locus interno é sempre melhor que um externo. Mas isso não é tão preto no branco. Pessoas com locus muito interno, mas sem apoio ou realismo, podem se tornar ansiosas, culpadas ou frustradas. Já um certo grau de locus externo pode ajudar algumas pessoas a aceitar melhor o que não está em seu controle, reduzindo a angústia.
O ponto de equilíbrio está em reconhecer aquilo que está ao seu alcance, e agir sobre isso — sem negar os próprios limites.
Conclusão
De volta à analogia inicial. A técnica da exposição, ou exposure, é uma técnica real, eficaz – mas precisa ser graduada, segura, controlada. Subir num prédio sem preparo é como aplicar uma técnica terapêutica sem entender o paciente. Pode causar mais trauma do que cura. Existe um jeito certo? Provavelmente, mas ele precisa ser descoberto para cada paciente, pelo binômio médico-paciente. Técnica não é mágica. É ferramenta. E ferramenta, na mão errada, vira arma.
Para quem convive com dor crônica, desenvolver um locus de controle interno pode ser transformador. Mas não se trata de repetir mantras motivacionais ou encarar qualquer desafio como uma prova de coragem. Técnicas existem, sim — e são valiosas. Mas, como todo tratamento sério, precisam ser bem orientadas, adaptadas e usadas com prudência. Além disso, é fundamental reconhecer que, para pacientes com dor crônica, habituar-se a ativar o locus de controle interno diante dos obstáculos e dilemas cotidianos não é opcional, mas uma habilidade tão necessária quanto praticar mindfulness ou manter uma boa higiene do sono.

