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A ciência diz que a fibromialgia é uma dor crônica: e daí?

Fibromialgia

Até pouco tempo a fibromialgia era reconhecida pela medicina, quando muito, como um sintoma. E quando menos, e com maior frequência, como um devaneio de pacientes ansiosos ou imaginosos. Não mais. Este post mostra, todavia, que esse reconhecimento, por demais baseado em ciência, não fez e ainda não faz diferença em como a fibromialgia – uma dor generalizada crônica que afeta a 10 milhões de brasileiros – continua sendo tratada na frente clínica. Ou seja, com pouco caso, algum desconforto e certa ignorância.

“As pessoas pensam que quem tem fibromialgia está apenas fingindo. Na verdade, elas entendem ao contrário – nós é que estamos fingindo estar bem.”

– Autor desconhecido

Autor: JULIO TRONCOSO, PhD

Com base numa iniciativa da International Association for the Study of Pain (IASP), a fibromialgia é hoje considerada oficialmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma “dor primária crônica”. Ou seja, uma dor presente em 1 ou mais regiões anatômicas que persiste ou recorre por mais de 3 meses e está associada a sofrimento emocional significativo ou deficiência funcional significativa (interferência nas atividades da vida diária…) e que não pode ser melhor explicada por outra condição de dor crônica.1

Dessa forma, na International Classification of Diseases (IDC 11) da OMS a fibromialgia convive com a dor nas costas que não é identificada como dor musculoesquelética ou neuropática, a dor crônica generalizada, e a síndrome do intestino irritável, entre outras.

Em segundo lugar, a fibromialgia afeta muita gente e custa uma fortuna atender medicamente os portadores em qualquer país. Estimativas da prevalência da fibromialgia no Brasil a situam na casa dos 10 milhões de pessoas.2 A fibromialgia é o segundo distúrbio mais comum observado por reumatologistas (depois da osteoartrite)3 e, segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, é responsável por uma subpopulação substancial de pacientes (10% a 15%) no ambiente de atenção primária.4

Em seguida, a literatura científica sobre as dores crônicas em geral, e sobre a fibromialgia em particular, tem aumentado consideravelmente nos últimos 30 anos. O resumo de um único artigo publicado no Rheumatic Diseases Clinics of North America atesta isso:

“A queixa de apresentação característica de pacientes com síndrome de fibromialgia (SFM) é a alodinia generalizada crônica. Os resultados da pesquisa apoiam a visão de que a SFM é uma doença neuropatofisiológica compreensível e tratável. A dor da SFM costuma ser acompanhada por uma ou mais manifestações, como humor afetivo, insegurança cognitiva, disfunção urinária ou intestino irritável. Evidências crescentes sugerem que este é um transtorno familiar com muitas associações genéticas subjacentes. Novas descobertas de imagens cerebrais e polissonografia implicam que a SFM pode ser um distúrbio do envelhecimento neurológico prematuro. Um modelo conceitual em nível molecular é proposto para explicar muitas das características observadas de SFM. O modelo também pode explicar as respostas antecipadas às terapias farmacológicas aprovadas pelo FDA.”5

A publicação – Neurophysiopathogenesis of fibromyalgia syndrome: a unified hypothesis”, de Jon Russell e Alice A Larson, ocorreu em 2009 e é apenas um exemplo. Ora, como afirmar que a fibromialgia é hoje uma doença ignorada pela ciência e os cientistas da dor?

“Nossa compreensão da fibromialgia aumentou substancialmente nos últimos anos; não é mais preciso afirmar que fibromialgia é ‘mal compreendida’.”

– Prof. Daniel Clauw, University of Michigan. Autoridade mundial no conhecimento da fibromialgia.

Apesar de tudo isso, a fibromialgia ainda apresenta sérios problemas na frente clínica.

Uma pesquisa recente com 800 pacientes portadores de fibromialgia de oito países evidencia que o tratamento atual dessa dor crônica não é satisfatório. Os médicos acham “difíceis”, tanto o diagnóstico como os pacientes. Estes, por sua vez, reclamam do tratamento e do tempo de espera para receber uma investigação, diagnóstico e cuidados. Embora a consciência e a compreensão da fibromialgia tenham melhorado, acredita-se que permaneça sem diagnóstico em até 3 de 4 pessoas com o transtorno (Decisions Resources Report,2009. Pfizer, New York, NY).  De fato, quando o paciente se apresenta ao médico pela primeira vez, a fibromialgia já começou (em média, mais de 2 anos. Em seguida, o diagnóstico definitivo em geral demora entre 2 e 7 anos.6

A desinformação começa pelo lado dos pacientes, a maioria do sexo feminino. Uma pesquisa realizada por mim em 2019, no Brasil, abrangendo mulheres com dor crônica, teve 1022 respondentes. Destas, 622 disseram ter sido informadas por um profissional da saúde sobre a doença causante da sua dor. Solicitadas a escrever o nome da doença, o resultado foi o seguinte:

Tabela 1 – Origem da Dor Crônica

Musculoesquelética - 251

Artrose, discopatia, fascite plantar, bursite, coluna, lombar, ciático, tendinite, carpo etc.

Fibromialgia - 185
Neurológica - 77

Enxaqueca, dor de cabeça etc.

“Doença Feminina” - 58

Endometriose, vaginismo, miomas, cistos etc.

Autoimune - 37

Artrite, hipotireoidismo etc.

Outras - 14

Gastrite, inflamação, depressão etc.

Total - 622

Nada menos que um terço (33,62%) das mulheres solicitadas a especificar a origem da sua dor crônica apontaram para a fibromialgia – uma proporção muitas vezes maior que a prevalência da doença na população mundial. Um exagero, obviamente. É provável que ele se deva ao caráter “de doença generalizada” atribuído a fibromialgia, que a assemelha a muitas outras doenças crônicas com as quais ela se confunde e/ou mostra comorbidade. Por outro lado, o dado escancara até que ponto, na prática, fibromialgia é um termo impreciso e dúbio, no âmbito dos leigos. Quanta gente vive angustiada pensando em ter fibromialgia, da qual ouviu falar barbaridades, sem sequer ter sido examinada por um médico ou médica? Ou pior ainda, se tiver sido mal diagnosticada com ela?

A incompreensão, ou simplesmente a falta de crédito, do(a)s médico(a)s em relação à fibromialgia não é menos preocupante. A fibromialgia é uma doença contestada no meio médico em geral, e largamente desaprovada, ou ignorada, no primeiro atendimento. Uma forma elegante de justificar isso é dizer que: “Enquanto alguns médicos a caracterizam como uma doença puramente orgânica baseada na amplificação anormal da dor, outros a consideram um transtorno biopsicocultural com etiologia multifatorial.” Outra forma é através de comentários politicamente incorretos (testemunhados por mim), tais como: “Odeio a paciente com fibromialgia, ela reclama de tudo”; ou “Isso (a fibromialgia) é coisa que está somente na cabeça delas”; ou “(A fibromialgia) é um reposteiro de queixas sem razão de ser”.

Em suma, a fibromialgia vive um paradoxo: ela é uma doença crônica real, reconhecida e bem documentada, mas os pacientes não se beneficiam disso.

As razões podem ser muitas. De fato, uma doença com causa até hoje indefinida, seja a olho nu, anamnese ou através de exames de laboratório, é de difícil diagnóstico.7 Tratamento tipo “padrão-ouro” para a fibromialgia não existe; os medicamentos que mais ou menos funcionam para outras doenças crônicas aqui pouco ou nada resolvem, progride-se (ou não) por tentativa e erro.

Contudo, um elefante deve ser comido por partes. Eu acredito que em boa medida o “paradoxo da fibromialgia” se deve à falta de informação acessível sobre essa doença crônica. Informação atualizada, fácil de obter e digerir em curto espaço de tempo e que esteja concentrada num único lugar. Informação, enfim, que condiga com a atribulada jornada de trabalho do(a) médico(a) típico(a).

Acesse o Guia “Fibromialgia para Profissionais da Saúde”, uma obra inédita dorcronica.blog.br

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