Dor crônica

O seu pior inimigo ao enfrentar a dor crônica? Você.

O seu pior inimigo ao enfrentar a dor crônica? Você.

Um ângulo delicado na relação entre humanos em geral, e na relação médico-paciente em particular, é o que ambos deixam de falar entre si. Não me refiro a mentir, mas simplesmente a omitir. Geralmente, o expediente serve para preservar a harmonia entre as partes. Profissionais da saúde em geral evitam comunicar ao paciente algo que poderia comprometer suas expectativas (positivas) e o paciente prefere perguntar pouco ao profissional para não parecer ignorante, ou porque não quer se arriscar a ouvir más notícias. Fato é que, nem sempre o contato é profícuo. No mínimo, mantém um bom número de pacientes portadores de doenças crônicas num limbo inofensivo e confortável, porém, geralmente improdutivo. Ou prejudicial.

“Você pode evitar a realidade, mas não pode evitar as consequências de evitar a realidade.”

– Ayn Rand

O que deve ser comunicado pelo médico ao paciente é um tema delicadíssimo, por óbvias razões éticas. O escasso tempo de consulta também pesa: em 15 minutos não há como comunicar uma má notícia ao paciente e, também explicar a ele ou ela, o que isso significa, em que se fundamenta e quais são os passos a seguir. Menos agressivo é, quando possível, pôr o gato no telhado ou algo assim. Isso dá para entender. Trata-se de proteger a psique do paciente, a harmonia familiar etc.

Sobre a dor crônica, no entanto, há inúmeras informações de domínio público que o paciente deveria conhecer. Informações que podem ajudá-lo a entender seu diagnóstico e conduzir seu tratamento da maneira certa – até porque ele, o paciente, mais dia menos dia constata que está sozinho nisso.

Qual é a consequência de não informar o paciente com dor crônica em relação as características – origens, sintomas, terapias etc. – da doença da qual é portador?

São muitas. Ao menos uma dezena, das que irei tratar num próximo post. Por enquanto, interessa apontar apenas uma: manter o paciente com dor crônica ignorante sobre o que lhe acontece.

Isso é particularmente prejudicial, no caso deste paciente. Exige-se dele (a) que autocontrole a sua condição de saúde, o que, no entanto, é impossível sem conhecer e aceitar a realidade tal como ela é.

Vejamos um exemplo.

Recentemente, eu fui agraciado com comentários irados vindos de duas visitantes do blog que detestaram o meu mal gosto ao incluir “Evite provocar os surtos” no elenco de “16 dicas para lidar com um surto de fibromialgia”.

Pois bem, surtos de dor – ou flare-ups – são característicos em doenças crônicas como a fibromialgia ou a endometriose.

O que é um surto de dor?

Um período de dor intensa temporária, que é mais intensa do que a dor crônica não oncológica. Um surto de fibromialgia se refere especificamente a uma piora temporária dos sintomas, como dor generalizada, fadiga, problemas cognitivos (“neblina da fibro”) e distúrbios do sono.

Os flare-ups não aparecem repentinamente como picos de dor, mas sim de forma menos abrupta e com durações mais longas. Eles podem durar horas ou dias, sem padrão identificável e com muito pouco aviso. E podem ser de dor somática ou neuropática.

Entre as diferentes exacerbações que podem ocorrer, devemos diferenciar:

  1. Exacerbação por exaustão terapêutica: quando o tratamento básico começa a ter menos efeito, pode aparecer um aumento da dor. Seu aparecimento é geralmente mais gradual, começando no final da dose. Nesse caso, o paciente pode se beneficiar de um aumento ou rotação da dose.
  2. Exacerbação por nova dor: É dor em um novo local ou novo sintoma. Deve ser estudado para identificar a causa.
  3. Exacerbação por flare-up: geralmente um aumento da intensidade da sua dor crônica, de duração variável, no mesmo local e com as mesmas características. Embora seu padrão seja difícil de identificar, devemos analisar se há gatilhos como aumento de atividade, estresse, mudanças climáticas, desafios familiares ou de trabalho etc.

A presença de flare-ups ou exacerbações é comum na dor crônica não oncológica, que, embora limitada, deve ser levada em consideração ao se pensar no tratamento ideal a longo prazo. Entender e aceitar que os flare-ups são comuns e recorrentes é fundamental para enfrentá-los com serenidade.

Ter um plano terapêutico que inclua tanto o tratamento básico (baseado em fármacos de liberação prolongada) quanto aquele voltado para as exacerbações (onde são necessárias liberações rápidas), significa que o paciente pode encarar sua dor com mais confiança, tendo consciência de que os surtos fazem parte do processo evolutivo da sua doença. Os flare-ups não aparecem repentinamente como picos de dor, mas sim de forma menos abrupta e com durações mais longas.

“Doença emocional é evitar a realidade a qualquer custo. Saúde emocional é encarar a realidade a qualquer custo”

– M. Scott Peck

Agora, vejamos a questão que irritou tão profundamente aquelas duas visitantes do blog: um paciente com fibromialgia pode provocar um surto?

Resposta: Mais do que certamente. Eu fui um paciente desses e afirmo, por experiência própria que, se tem alguém provocando boa parte da dor e dos sintomas de uma doença crônica, é a gente mesmo. Por comodidade (“Eu, fazer exercício? Ora, hoje não.”). Ou por ignorância (“Tomando um antidepressivo a dor passa”). Ou por catastrofismo (“Não adianta tentar. Será o que será”.) Ou por dezenas de outras desculpas, todas válidas, claro. Em geral, ninguém tem a intenção de se prejudicar. Contudo, acontece. E muito.

Abaixo estão as maneiras comuns pelas quais os pacientes com fibromialgia podem provocar um surto involuntariamente:

1. Esforço físico excessivo

Envolver-se em atividade física intensa sem ritmo adequado, como: exercícios vigorosos ou treinos longos. Levantar objetos pesados ​​ou se envolver em movimentos repetitivos. Atividade física irregular: alternar entre períodos de atividade intensa e descanso prolongado.

Solução: usar estratégias de ritmo — dividir as tarefas em etapas menores, incorporar descanso e manter atividade física moderada e consistente (como caminhar ou alongar).

2. Má qualidade do sono

Padrões de sono inconsistentes (dormir tarde, horários de sono interrompidos). Condições como insônia, síndrome das pernas inquietas ou apneia do sono podem piorar os sintomas. Tempo de tela ou estimulantes (cafeína, eletrônicos) antes de dormir podem prejudicar o sono.

Solução: Desenvolva rotinas de higiene do sono, como ir para a cama no mesmo horário todos os dias, evitar telas e criar um ambiente de sono tranquilo.

3. Estresse emocional e ansiedade

Alto estresse emocional de questões pessoais, financeiras ou relacionadas ao trabalho pode amplificar os sintomas. Ansiedade e padrões de pensamento catastróficos contribuem para a percepção aumentada da dor.

Solução: Pratique atividades de redução de estresse, como atenção plena, exercícios respiratórios ou terapia cognitivo-comportamental (TCC).

4. Mudanças climáticas e sensibilidade à temperatura

Clima frio, úmido ou mudanças climáticas repentinas (por exemplo, tempestades se aproximando) geralmente desencadeiam crises. A sensibilidade ao calor também pode piorar os sintomas para alguns pacientes.

Solução: Agasalhe-se bem, use compressas quentes ou bolsas de resfriamento e monitore as previsões do tempo para planejar adequadamente.

5. Infecções ou doenças

Mesmo infecções leves (por exemplo, resfriados ou gripes) podem provocar crises. A resposta imune e as alterações inflamatórias durante infecções parecem amplificar os sintomas.

Solução: Pratique o autocuidado durante doenças, tome os medicamentos conforme prescrito e mantenha-se em dia com as vacinas para prevenir infecções.

6. Escolhas alimentares

O consumo de alimentos processados, açúcar, glúten, álcool ou cafeína pode exacerbar os sintomas. Alguns pacientes são sensíveis a certos aditivos alimentares, como adoçantes artificiais.

Solução: Mantenha uma dieta balanceada e anti-inflamatória e identifique os gatilhos alimentares individuais por meio de um diário.

7. Problemas com medicamentos

Doses perdidas de medicamentos prescritos para fibromialgia ou condições relacionadas (por exemplo, antidepressivos, analgésicos). Os efeitos colaterais ou interações medicamentosas também podem levar ao agravamento dos sintomas.

Solução: Siga os horários de medicamentos prescritos e consulte os profissionais de saúde se forem necessários ajustes.

8. Sobrecarga emocional e sensorial

Superestimulação por luzes brilhantes, ruídos altos, ambientes lotados ou situações emocionalmente carregadas. Problemas de processamento sensorial são comuns, tornando os pacientes propensos à sobrecarga.

Solução: Use técnicas de modulação sensorial (por exemplo, protetores auriculares, óculos de sol) e evite ambientes superestimulantes quando possível.

9. Flutuações hormonais

Ciclos menstruais, menopausa ou desequilíbrios da tireoide podem desencadear crises em pacientes do sexo feminino. Alterações hormonais influenciam a sensibilidade à dor e a regulação emocional.

Solução: Acompanhe os sintomas relacionados aos ciclos hormonais e discuta possíveis tratamentos com um profissional de saúde.

10. Mudanças na rotina ou viagens

Viajar ou interromper rotinas regulares (sono, alimentação, atividade) pode provocar sintomas. Jet lag e mudanças de fuso horário também podem afetar os níveis de sono e dor.

Solução: Mantenha uma rotina estruturada, planeje períodos de descanso durante a viagem e ajuste os horários para minimizar as interrupções.

Conclusão

As crises de fibromialgia geralmente são o resultado de vários fatores que interagem. Embora nem todos os gatilhos possam ser evitados, a autoconsciência e as estratégias de gerenciamento proativo — como ritmo, gerenciamento do estresse e manutenção de rotinas — podem ajudar a reduzir a frequência e a gravidade dos flare-ups. O que nunca vai ajudar é tampar o sol com a peneira, fingir que a terra é plana, ou que todas as dores crônicas acontecem porque sim. Sem que a gente tenha nada a ver com isso.

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