Vivemos em uma era em que a praticidade reina. Entre compromissos, correria e cansaço, os alimentos ultraprocessados se tornaram protagonistas da dieta moderna. São fáceis, rápidos, saborosos – e, aparentemente, inofensivos. Mas será que essa conveniência tem um preço? A ciência tem mostrado que sim. E para quem convive com dor crônica, esse preço pode ser ainda mais alto.
Nossos corpos não foram projetados para lidar com “alimentos que não são realmente alimentos”. “Alimentos” ultraprocessados hiperpalatáveis e viciantes, atualmente representam entre 60% e 75% do que um adulto típico come. Eles são feitos usando processos de fabricação industrial (como extrusão, moldagem e pré-processamento) e levam ao consumo excessivo e a potenciais problemas de saúde.
Há uma década, o consumo de alimentos ultraprocessados no Brasil já era alto, estimado em aproximadamente 75% do que os adolescentes brasileiros
consumiam regularmente. Pesquisas menores, porém mais recentes, sobem a marca para 90%, na população geral.
No Brasil , há uma relação direta entre o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e o aumento do peso na população. Estudos demonstram que o consumo desses alimentos está associado a um maior risco de obesidade, sobrepeso e outras doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes e doenças cardiovasculares.
Por que a maioria das pessoas insiste em consumir alimentos ultraprocessados?
Falta de informação? Difícil. Hoje em dia até as pedras sabem que esse tipo de alimento não é saudável.
A razão provavelmente está no fato de eles serem considerados “baratos, convenientes e saborosos”.
Se você tem dor crônica, especialmente aquelas dores que não têm uma lesão visível – como fibromialgia, enxaqueca ou síndrome do intestino irritável – manter um peso saudável e uma alimentação estável não é só uma questão estética. É um tratamento.
Isso, seu médico ou médica já deve ter dito a você. O que talvez ele ou ela não tenha dito é que a comida pode bagunçar o seu sistema nervoso, e assim, agravar essa dor persistente que você já tem.
Note que eu não estou trazendo o excesso de peso e sua incidência na dor crônica à baila. Refiro-me agora a uma outra frente de preocupação.
Nessas dores crônicas sem lesão aparente, a maioria, por sinal, o que está por trás do sintoma é uma disfunção do sistema nervoso – um tipo de “pane elétrica” que mantém o alarme da dor ligado sem motivo claro.
E essa disfunção pode ser alimentada – literalmente – pela qualidade da sua alimentação.
Dietas ricas em alimentos ultraprocessados mexem com dois sistemas essenciais para quem vive com dor:
O eixo intestino-cérebro (gut-brain)
Seu intestino e seu cérebro estão em constante comunicação. Quando você consome muitos aditivos artificiais, emulsificantes, adoçantes e outras substâncias comuns nos ultraprocessados, sua microbiota intestinal sofre. E um intestino irritado pode mandar sinais para o cérebro que intensificam a dor, a ansiedade e o desconforto.
O eixo HPA (hipotálamo–hipófise–adrenal)
Esse é o eixo que regula sua resposta ao estresse. Quando está desequilibrado – o que acontece com frequência em dietas ruins –, o corpo entra num estado de alerta crônico, com liberação constante de hormônios do estresse, o que pode deixar o sistema de dor ainda mais sensível.
Resultado?
- Mesmo sem engordar, comer mal pode piorar sua dor, manter seu cérebro em alerta e dificultar o descanso do seu sistema nervoso.
O que um estudo britânico acaba de mostrar? 
Pela primeira vez, pesquisadores conduziram o maior e mais longo ensaio clínico já feito sobre esse tema, publicado na prestigiosa Nature Medicine.
Eles alimentaram grupos de voluntários com duas dietas diferentes, alternadamente:
- Uma baseada em alimentos minimamente processados: arroz, frango grelhado, frutas frescas, legumes cozidos, iogurte natural.
- Outra baseada em alimentos ultraprocessados saudáveis: shakes proteicos, cereais integrais industrializados, lasanhas congeladas, iogurtes saborizados.
Ambas as dietas tinham os mesmos valores nutricionais básicos (pouco sal, açúcar, gordura etc.) e os participantes podiam comer à vontade.
Resultado?
- As pessoas comeram menos sem perceber quando estavam na dieta natural.
- Relataram menos desejo por comida.
- E perderam o dobro de peso em dois meses com a dieta minimamente processada.
O que isso revela?
- Que a qualidade dos alimentos importa mais do que apenas os números (calorias, gorduras etc.).
- Que o seu corpo responde melhor ao que é reconhecível, simples, vindo da natureza.
- E que a comida pode regular – ou desregular – seu cérebro, seu intestino e sua dor.
O que você pode fazer, então?
Sinceramente, se você for portador de uma ou mais dores crônicas e na sua alimentação primam os produtos processados, o primeiro passo é ler esta postagem de novo. Digo isso porque se você mora nesse planeta já deve ter ouvido falar, ou lido, que esses alimentos fazem mal a qualquer um. O que talvez você não saiba é que eles fazem muito pior a quem está na sua situação, vivendo com dor crônica. Pode ser que essa novidade (por fim) gere um sinal de alerta na sua mente. Então, leia de novo. Devagar.
Depois, siga as 2 simples recomendações seguintes:
- Troque alimentos processados por caseiros sempre que puder.
- Volte a cozinhar – nem que seja arroz, ovo e legumes. A cozinha é uma porta de entrada para a autogestão da dor crônica.
Em resumo
- A dor crônica sem lesão visível está ligada a disfunções do sistema nervoso, e a má alimentação pode alimentar essa disfunção.
- Ultraprocessados desregulam seus sinais internos, aumentam o desejo por comida e dificultam o controle da dor. Trata-se de mensagens naturais que o corpo envia ao cérebro para regular fome, saciedade, energia, prazer e até dor. Esses sinais fazem parte de um sistema fino de autorregulação – e os ultraprocessados podem embaralhá-lo.
- Alimentos naturais ajudam a “acalmar” seu cérebro e seu intestino, favorecendo equilíbrio, saciedade e menor sensibilidade à dor.
- A comida pode ser uma aliada terapêutica, tão importante quanto o remédio, o exercício ou a terapia.
Seu corpo fala. Sua dor fala. Mas seus hábitos alimentares também estão dizendo algo.
A pergunta é: você está ouvindo?

